Quando a indesejada das gentes chegar

Quando foi a última vez que você pensou na morte? Ser cirurgião de câncer me obriga, frequentemente, a pensar no fim. Penso quase todos os dias no fim dos outros, no meu fim e no dos meus – pacientes, familiares e amigos. Temos, felizmente, como cirurgiões oncológicos, uma maioria de finais felizes. Portanto, uma maioria de não-finais, de continuidade da vida e de cura. Te peço coragem para continuar a leitura. Existe uma expressão latina que diz: memento mori. “Lembre-se de que um dia você vai morrer.” Mas para que, afinal, ficar pensando que o fim chegará? Um dia terrível em que nos separaremos dos nossos queridos, seja pela partida de algum deles ou pela nossa partida? A mensagem dessas duas palavras em latim, na verdade, tenta nos direcionar para uma vida plena, verdadeira e completa. Para todos nós, infelizmente, é certo que uma hora a morte chegará. Um dos meus papéis como cirurgião oncológico é atrasar o relógio. Outro dos meus papéis é dar conforto para aquela pessoa que já está indo, que uns chamam de “terminal” e que, quando for, dirão que fulano “descansou”. Para ele, a morte era um esperado alívio, um descanso de algumas formas de sofrimento. Para outros, é apenas o fim de um ciclo e o início de outro. Outra das minhas atribuições é mostrar para cada paciente e para sua família que, até que esse dia chegue, temos a oportunidade de aproveitar cada momento. Essa idéia é um dos pilares do estoicismo, escola antiga de filosofia que tem como nomes Epicteto, Sêneca e outros grandes pensadores. Talvez, em casos de câncer avançado, a gravidade da doença já mostre a todo tempo a fragilidade da vida. Venho com este texto propor uma reflexão, antes que surja uma grande ameaça, uma grande perda ou que seja tarde demais, já que por vezes a vida pode ser demasiado curta. Partidas precoces, de pessoas jovens, chocam ainda mais. Bob Marley faleceu de melanoma – um câncer de pele agressivo – aos 36 anos, uma vida curta que eternizou diversas canções. Uma tragédia. O filho do cantor Eric Clapton caiu do 53º andar de um prédio nos Estados Unidos aos quatro anos de idade. Outra trágedia. E tragédias não escolhem cor, credo ou classe social. Podem acontecer com qualquer um. Amanhã ou ano que vem. Podem ser doenças, acidentes, tiros, mísseis ou vírus. Meu dever é lutar contra o câncer. Faço isso todos os dias. Ajudar a prevenir, detectar precocemente e tratar da melhor forma possível, com a melhor cirurgia, quimioterapia ou radioterapia, dependendo do caso. Como eu já disse, ele pode acontecer com qualquer um, a qualquer hora. E essa realidade é jogada na minha cara o tempo inteiro. Confesso que isso me dá medo de ficar doente, sim. Mas também me dá energia, brio, vontade de viver uma vida plena, preenchida. Por isso insisto tanto para as pessoas buscarem o que as preenchem e as deixam felizes. Muita gente só descobre um caminho que faça sentido após alguma catástrofe. Uns nem o encontram. Nem todo mundo descobre esse tal propósito – ou ikigai, como dizem os japoneses – logo cedo ou antes que não seja mais possível voltar atrás. Peço que a lembrança da nossa finitude te faça refletir todos os dias e te estimule a ser uma pessoa melhor a cada dia, em busca de contribuições para a sociedade, relacionamentos verdadeiros e memórias inesquecíveis. E que isso te leve a um grande contentamento e preenchimento. Que a consequência natural dessa busca seja um legado de quem viveu uma vida incrível, para si e para os outros. De quem deixou uma marca positiva nos que ficam, como as músicas do Bob Marley. Não de quem viveu apenas para comprar coisas após vender as horas do seu dia e a sua saúde para acumular patrimônio. Ele mesmo cantava: “Don’t gain the world and lose your soul; wisdom is better than silver and gold.” (“Não ganhe o mundo e perca a sua alma; sabedoria é melhor que prata e ouro.”) “Quando a indesejada das gentes chegar”, como dizia o poema de Manuel Bandeira, seu legado será a riqueza que seus herdeiros mais irão valorizar. Muito mais do que a casa, o carro ou qualquer outra coisa que tenha preço. Tudo o que tem preço, é barato. Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori. (Olhe ao seu redor. Não se esqueça que você é apenas humano. Lembre-se de que um dia você vai morrer.) E por lembrar disso, viva a cada dia uma vida que valha a pena. Deixe marcas boas. Não deixe para depois o que é de fato importante, porque o depois pode não chegar. Digo isso com conhecimento de causa, e não como pessimista: quantos pacientes chegaram a mim relatando que “há pouco tempo eu não sentia absolutamente nada” e em dias já não tem noção se estarão aqui na semana que vem. Tenho fotos na minha memória de tantos pacientes jovens que infelizmente perderam a luta contra o câncer. Tinham planos e tudo parou de um dia para o outro. “Eu ia começar a faculdade mês que vem...” Lembro o nome e um pouco da história da curta vida de vários deles. E se fosse comigo? Valeu tudo o que vivi e fiz até hoje? Fui significativo para a minha comunidade? Lembro também de tantos pacientes mais velhos com os mais diversos arrependimentos. “Devia ter...” E se fosse minha mãe? Ela estaria arrependida ou grata por tanto trabalho? Ela teria se preocupado menos? Ou estaria apenas orgulhosa do que construiu e do filho que criou? Você com certeza já ouviu alguma notícia de alguém próximo que passou por isso ou por alguma outra tragédia. Escrevo aqui para tentar evitar que sua vida se torne a canção “Epitáfio”, dos Titãs. “Devia ter amado mais (...) Devia ter trabalhado menos (...) Devia ter me importado menos com problemas pequenos”. A vida não precisa ser pequena.

 

“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando de vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.”

 

O Tempo – Mário Quintana

 

Lembre-se de que um dia você vai morrer. E nada impede que isso aconteça amanhã. Viver é urgente. Sem desespero, mas urgente. Use isso a seu favor, reflita, medite, pare e recomece do zero, se necessário, desde que tudo o que faça tenha sentido para você. “Antes que seja tarde demais para ser reprovado.” 

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Stéfano Fiúza

Cirurgião de Cabeça e Pescoço